Segundo
Peter Wollen, um filme político é aquele que comenta sobre a
própria feitura do meio de comunicação, tratando da função
metalingüistica:
Geralmente entende-se
que fazer cinema político significa fazer filmes com uma mensagem
que é transmitida do modo mais eficaz possível ao telespectador
(...) mas um filme político é aquele que leva as pessoas a fazer
perguntas, considerar questões, questionar pressupostos
estabelecidos sobre o próprio cinema, seu papel enquanto indústria
de entretenimento. O cinema político se relaciona com a forma assim
como o conteúdo, com os meios assim como com os fins.”1
Nosso objetivo aqui é
demonstrar que o fato de um filme colocar em cheque determinado meio
de comunicação não significa necessariamente que a referida
produção cinematográfica seja uma que “leva as pessoas a
fazer perguntas, considerar questões, questionar pressupostos
estabelecidos”. Ou seja, conduz o telespectador a desenvolver
uma visão crítica com relação ao tema colocado.
Para isso, escolhemos o longa metragem
O Quarto Poder (Mad
City,EUA,1997; dir.: Costas-Gravas) que trata do sensacionalismo na
imprensa e do grande poder que está detém como órgão formador de
opinião. Na trama, Max Brocket (Dustin Hoffman) é um jornalista
veterano que já esteve no topo. O repórter vai fazer uma simples
matéria sobre um museu com problemas financeiros, quando presencia
uma situação inusitada: Sam Baily(John Travolta), um dos
seguranças da instituição – que havia sido demitido para cortar
os gastos – volta ao local disposto a reaver seu emprego. Numa
atitude desesperada, ameaça a diretora do museu armado com um rifle.
Ao mesmo tempo crianças visitam o local em uma excursão escolar.
Bracket percebendo aí uma oportunidade para reaver seu
prestígio profissional começa a repassar a notícia para a emissora
de TV em que trabalha. Esta lança tudo em primeira mão. O que era
pra ser uma reportagem trivial se transforma em um caso de
repercussão nacional. A situação ganha proporção ainda maior
quando a arma de Sam atira acidentalmente no outro segurança do
museu.
O filme segue à risca
as normas do cinema clássico hollywoodiano. As situações seguem
uma lógica narrativa, com princípio, meio e fim bem estabelecidos,
além de uma perfeita representação espacial. Sendo assim, não
pretende criar condições para que o espectador reflita, julgue ou
avalie os eventos mostrados no filme. Como conseqüência, aquele
que o assiste recebe uma “verdade” como se fosse verdadeira, sem
espaço para questionamentos.
Na cena inicial do
filme, os equipamentos de reportagem (câmera, microfone etc) são
filmados em close dando a impressão que se tratam de armas. O
telespectador é convidado a mergulhar na dinâmica do filme, o que
não dá margem para a reflexão sobre a temática da obra. Criando
condições para a aceitação daquilo que o filme coloca.
Existem ainda, outros
ingredientes que colocam o jornalismo em cheque: a estagiária que
só pensa em subir na carreira; a imprensa sensacionalista que
inventa “amigos” para o bandido; o âncora consagrado que não
quer ver o colega tomar seu lugar; o assédio inescrupuloso às
famílias das vítimas e do seqüestrador; a concorrência pela
entrevista exclusiva; a manipulação das entrevistas na hora da
edição.
Esses eventos de O
Quarto Poder, ao invés de suscitar o espírito crítico, induzem
a um sentimento de conformismo com relação à realidade da
imprensa. Isso porque os acontecimentos exibidos na tela são
colocados de forma tão fria e burocrática que não chega a causar a
menor indignação. Dando o entender que a realidade é plena e
absoluta, não pode ser alterada e deve ser aceita sem
questionamentos.
Numa parte do filme, a
operadora de câmera filma o guarda que tomou um tiro, existe dentro
da emissora uma discussão sobre se a imagem deve ou não ir ao ar.
O diretor do núcleo de jornalismo acha que não porque, segundo ele,
as pessoas não estão interessadas em ver cenas tão agressivas na
TV. Seus colegas discordam por considerarem que as imagens chamariam
a atenção do público para o caso, o que traria mais audiência
Depois de alguns instantes, o diretor acaba sendo convencido de que a
cena deve ir ao ar.
Nesse trecho do filme, –
como em outros – os diálogos não se aprofundam na polêmica
proposta pelo filme. Dessa forma não há chance para que o
espectador chegue a avaliar as questões que o filme tenta suscitar.
Essa percepção da
realidade não sugere um espírito crítico, – fundamental para que
se possa “politizar” sobre qualquer coisa – está mais
relacionada com a conformidade. Sendo assim, O Quarto Poder
não pode ser considerado um filme político.
1
WOLLEN, Peter. In: O Cinema no século, Ismail Xavier.
(org.). Rio de Janeiro: Image, 1996.
Obs.: Texto escrito durante o curso de Publicidade da PUC-Rio no ano de 2000.
Obs.: Texto escrito durante o curso de Publicidade da PUC-Rio no ano de 2000.

