domingo, 17 de abril de 2016

O Quarto Poder não politiza

Segundo Peter Wollen, um filme político é aquele que comenta sobre a própria feitura do meio de comunicação, tratando da função metalingüistica:
Geralmente entende-se que fazer cinema político significa fazer filmes com uma mensagem que é transmitida do modo mais eficaz possível ao telespectador (...) mas um filme político é aquele que leva as pessoas a fazer perguntas, considerar questões, questionar pressupostos estabelecidos sobre o próprio cinema, seu papel enquanto indústria de entretenimento. O cinema político se relaciona com a forma assim como o conteúdo, com os meios assim como com os fins.”1
Nosso objetivo aqui é demonstrar que o fato de um filme colocar em cheque determinado meio de comunicação não significa necessariamente que a referida produção cinematográfica seja uma que “leva as pessoas a fazer perguntas, considerar questões, questionar pressupostos estabelecidos”. Ou seja, conduz o telespectador a desenvolver uma visão crítica com relação ao tema colocado.
Para isso, escolhemos o longa metragem O Quarto Poder (Mad City,EUA,1997; dir.: Costas-Gravas) que trata do sensacionalismo na imprensa e do grande poder que está detém como órgão formador de opinião. Na trama, Max Brocket (Dustin Hoffman) é um jornalista veterano que já esteve no topo. O repórter vai fazer uma simples matéria sobre um museu com problemas financeiros, quando presencia uma situação inusitada: Sam Baily(John Travolta), um dos seguranças da instituição – que havia sido demitido para cortar os gastos – volta ao local disposto a reaver seu emprego. Numa atitude desesperada, ameaça a diretora do museu armado com um rifle. Ao mesmo tempo crianças visitam o local em uma excursão escolar.
Bracket percebendo aí uma oportunidade para reaver seu prestígio profissional começa a repassar a notícia para a emissora de TV em que trabalha. Esta lança tudo em primeira mão. O que era pra ser uma reportagem trivial se transforma em um caso de repercussão nacional. A situação ganha proporção ainda maior quando a arma de Sam atira acidentalmente no outro segurança do museu.
O filme segue à risca as normas do cinema clássico hollywoodiano. As situações seguem uma lógica narrativa, com princípio, meio e fim bem estabelecidos, além de uma perfeita representação espacial. Sendo assim, não pretende criar condições para que o espectador reflita, julgue ou avalie os eventos mostrados no filme. Como conseqüência, aquele que o assiste recebe uma “verdade” como se fosse verdadeira, sem espaço para questionamentos.
Na cena inicial do filme, os equipamentos de reportagem (câmera, microfone etc) são filmados em close dando a impressão que se tratam de armas. O telespectador é convidado a mergulhar na dinâmica do filme, o que não dá margem para a reflexão sobre a temática da obra. Criando condições para a aceitação daquilo que o filme coloca.
Existem ainda, outros ingredientes que colocam o jornalismo em cheque: a estagiária que só pensa em subir na carreira; a imprensa sensacionalista que inventa “amigos” para o bandido; o âncora consagrado que não quer ver o colega tomar seu lugar; o assédio inescrupuloso às famílias das vítimas e do seqüestrador; a concorrência pela entrevista exclusiva; a manipulação das entrevistas na hora da edição.
Esses eventos de O Quarto Poder, ao invés de suscitar o espírito crítico, induzem a um sentimento de conformismo com relação à realidade da imprensa. Isso porque os acontecimentos exibidos na tela são colocados de forma tão fria e burocrática que não chega a causar a menor indignação. Dando o entender que a realidade é plena e absoluta, não pode ser alterada e deve ser aceita sem questionamentos.
Numa parte do filme, a operadora de câmera filma o guarda que tomou um tiro, existe dentro da emissora uma discussão sobre se a imagem deve ou não ir ao ar. O diretor do núcleo de jornalismo acha que não porque, segundo ele, as pessoas não estão interessadas em ver cenas tão agressivas na TV. Seus colegas discordam por considerarem que as imagens chamariam a atenção do público para o caso, o que traria mais audiência Depois de alguns instantes, o diretor acaba sendo convencido de que a cena deve ir ao ar.
Nesse trecho do filme, – como em outros – os diálogos não se aprofundam na polêmica proposta pelo filme. Dessa forma não há chance para que o espectador chegue a avaliar as questões que o filme tenta suscitar.
Essa percepção da realidade não sugere um espírito crítico, – fundamental para que se possa “politizar” sobre qualquer coisa – está mais relacionada com a conformidade. Sendo assim, O Quarto Poder não pode ser considerado um filme político.

1 WOLLEN, Peter. In: O Cinema no século, Ismail Xavier. (org.). Rio de Janeiro: Image, 1996.
Obs.: Texto escrito durante o curso de Publicidade da PUC-Rio no ano de 2000.

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