terça-feira, 12 de abril de 2016

Rock Made in Brazil


Sem dúvida, o Rock nacional dos anos 80 é um movimento que marcou época. Num país reprimido por uma ditadura e iniciando seu processo de redemocratização, nada mais natural que nele se desenvolvesse um estilo musical que fosse espelho dessa realidade.
Apesar de serem o retrato de um período, muitos grupos soam atuais até hoje. É o caso do Capital Inicial, cujo seu último CD acústico ultrapassou a marca de 500 mil cópias; dos Engenheiros do Hawaii, que lançaram um disco ao vivo e tocarão no Rock in Rio III e dos Titãs que continuam nas paradas de sucesso, só que agora com um álbum formado de covers. Todos disputando espaço com artistas mais recentes.
O que esses e outros grupos oitentistas têm para continuar na ativa e arrebanhar fãs mais jovens? Essa e outras respostas podem ser obtidas em BRock – O Rock Brasileiro dos Anos 80 de Arthur Dapieve. Na obra, lançada em 1995, o autor traça um quadro geral de um movimento que buscava a valorização dos anseios da juventude.
Após um curto porém belo prólogo – que resgata o clima dos primórdios do movimento no Circo Voador –, o livro começa pelos antecedentes do BRock, do final dos anos 50 até desembocar no início dos 80. Reserva um capítulo à parte para cada um dos grupos que conseguiu grande destaque – entre eles: Legião Urbana, Barão Vermelho e RPM –, um outro reservado aos chamados grupos da “Segundona”, que apesar de não obterem grande sucesso tiveram sua importância como os Inocentes, liderados por Clemente (único negro que a se firmar num ambiente de brancos) e do Kid Abelha, que conta com Paula Toler (uma das raras mulheres que conseguiu mostrar seu valor num espaço predominantemente masculino).
Aqueles que apesar de não se tornarem grandes nomes, receberam seu espaço em as “Divisões de Base” do BRock. fundamental para que este se desenvolvesse, os grupos que não chegaram à fama foram importantes na consolidação do movimento.
Com uma narrativa bem cuidada e recheada de detalhes (que não empobrecem a obra), Dapieve analisa o futuro do BRock com um capítulo referente a primeira metade dos anos 90. Tendo em vista a conjuntura político-econômica do país, coloca de forma contundente a gestação, o crescimento e o porque da sobrevivência desse Rock com uma cara de Brasil.
A 2ª edição, lançada em 96, conta com um posfácio sobre Renato Russo. Esse acréscimo ocorreu devido a morte do líder do Legião Urbana no final daquele ano. Ao lado de Arnaldo Antunes e Cazuza, ele pode ser considerado um dos maiores poetas do BRock.
Jornalista especializado em cultura, Arthur Dapieve acompanhou o movimento que ele mesmo batizou de BRock não só no jornal “O Globo”, onde ele trabalha, como no “Jornal do Brasil” e na revista “Veja”. O jornalista, formado na PUC-Rio, tenta não ser amoroso com o tema de sua publicação – em muitos momentos consegue –, fazendo com que o leitor encontre não uma obra nostálgica mas uma que retrate uma fase de nossa história em que (parafraseando Cazuza) “O Tempo Não Para”. Nos pontos exatos e com uma precisão cirúrgica, Dapieve coloca toda a sua afeição pelo BRock, não de forma alienada mas norteado por referências de quem presenciou e vivenciou aqueles momentos.
Enfim, o livro é uma maneira de relembrar ou conhecer a forma de expressão dos conflitos e anseios de uma geração. Coisas que transcendem uma juventude e se eternizam na cultura de um país.
Livro: BRock – O Rock Brasileiro dos Anos 80, de Arthur Dapieve. Rio de Janeiro: Editora 34, 224 páginas.
Obs.: Texto escrito durante o curso de Publicidade da PUC-Rio no ano de 2000.

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